Artigos > Bruxaria, o sussurro
da Lua e o clamor da Terra
Data: 14/02/2005
Autoria: Pietra
di Chiaro Luna
Escrever sobre bruxaria é sempre um desafio. Ela representa
um universo imenso, cheio de pequenas estrelas, e seria injustiça
não cobrir todas elas. Colocar o que é esta
religião (para uns) e filosofia (para outros) que atrai
tantas pessoas; quem são esses Deuses que são
tudo... No entanto, com espaço limitado, está
aqui uma abordagem aos aspectos mais importantes (?). Em futuras
oportunidades, falaremos sobre diferentes tradições,
mitologias, panteões, liturgias, ou seja, cobrindo
todas as brilhantes estrelinhas.
Origens da espiritualização
O fazer mágicko e de harmonia com a Natureza, que é
corrente para os bruxos, vem de tempos antigos, nos quais
os homens se entendiam como parte da Criação.
Desde o tempo do Neanderthal observamos a espiritualização
do homem: em parte como tentativa de compreender e sobreviver
no mundo. Observa-se a sacralidade das cavernas e dos animais
como deuses, ancestrais, guias e protetores. Com o passar
do tempo, a figura humana passa a integrar ritos, sob as figuras
do xamã e das Vênus. Os xamãs são
desenhados nas paredes das cavernas representando o poder
mágicko humano e animal, chegando às esferas
do divino. Já as Vênus são esculturas
que representam o poder fértil e nutridor da mulher;
até então, não se entendia plenamente
o mecanismo feminino x masculino da Natureza.
Magia primitiva
Juntamente com as manifestações já colocadas,
os antigos faziam magia através de rituais ou do seu
dia-a-dia. Na pré-história era indispensável
que os animais estivessem ao alcance da
lança dos caçadores ou que, mais tarde, os campos
agrícolas estivessem verdejantes. Desenvolveu-se entre
esses homens o que Frazer (1889) chama de 'magia imitativa'.
Rituais, pinturas, atos, feitiços, festas e manifestações
diversas eram feitas imitando a caça, os animais ou
a fertilidade da Terra. Para eles o efeito era semelhante
à sua causa, e esta 'lei mágicka' perdura até
hoje. Outra forma de manifestação mágicka
era (e ainda é) a magia por contágio, ou seja,
na qual um elemento influência outro através
do contato. Daí nasceram tradições de
maldições e benefícios usando roupas
ou cabelos, unhas e objetos pertencentes a alguém.
Até aqui, alguns se perguntam, então a bruxaria
é pré-histórica? Talvez não ela
per se, mas com certeza seu embrião de crenças
e práticas.
Funções em grupos e praticantes solitários
O tempo passa e as sociedades se desenvolvem. Junto com elas,
suas práticas e crenças. E assim, cada grupo
foi construindo suas formas de se ligar ao divino e a forma
de concebê-lo. Desta forma, nasceram e criaram-se os
clãs, famílias com crenças próprias
de cada um; tribos; grupos e praticantes das ciências
da Natureza como parteiras, herbolários, boticários,
xamãs que cuidavam do bem-estar de uma comunidade.
Foram eles os percussores das ciências naturais e ocultas.
Cada sociedade passou a ter um sistema. Os celtas tinham como
sacerdotes e sacerdotisas os druidas. Adoravam deuses e deusas,
tinham heróis e sua mitologia mostrava uma gama de
objetos mágickos. Tinham uma roda óctupla de
festas, destacando o Samhain que marcava o ano novo. Eram
um povo guerreiro e desenvolvido e aplicava a igualdade entre
sexos. Segundo Aengus, na verdade não existem provas
concretas para indicar uma celebração propriamente
dita dos solstícios e equinócios entre os celtas
da Idade do Ferro (período em que os druidas estavam
ainda "em vigor") - este inclusive é um assunto
ainda polêmico, mas basicamente quem trouxe à
luz essa idéia do ano octuplo entre os druidas foram
as primeiras ordens druídicas inglesas do século
18 (tais como a OBOD) as quais são conhecidas por seu
druidismo romântico carregando influências maçônicas
(como era de se esperar para a época!). Os ciganos,
possivelmente originais da Índia, ainda são
um povo nômade que adota o sistema religioso do lugar
no qual se encontram. Têm uma vasta tradição
em divinação, feitiços de amor e fidelidade
tal qual, maldições. Os itálicos descendentes
de vários povos tinham diferentes panteões.
No cerne dos romanos, seus ritos se destacavam pela devoção
à terra cultivada e aos deuses urbanos; já os
etruscos apresentavam um refinado culto aos mortos e às
fadas. Todos esses povos influenciaram na bruxaria e entre
eles mesmos. Durante a idade antiga houve muito intercâmbio
de informações e liturgias - principalmente
via romanos - vistas até hoje. Estes povos, entre muitos
outros da antiguidade prosperam com suas formas e caminhos
até a ascensão da Igreja Católica e sua
sede de hegemonia religiosa e controle político. Então,
chega a Idade das Trevas na qual fenece as Artes, a cultura
clássica, as ciências e muitos dos que conheciam
os segredos da Natureza.
Bruxaria hoje
A Bruxaria sempre esteve presente, mais ou menos exposta.
Em 1951 foi revogado o último embargo legal à
Bruxaria na Inglaterra, gerando publicações
e a sua popularização, principalmente na forma
da Wicca. No entanto, a Bruxaria não existe de uma
maneira somente e ao longo do tempo sofreu influências
de sua região e dos contatos desta. Frater Aleph (1)
nos coloca que houve uma certa hermetização
e aplicação de conceitos de ordens iniciáticas
como a Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis. A primeira trouxe,
essencialmente, elementos como a evocação dos
elementos da Natureza e suas correspondências, o chamado
aos Guardiões e a construção do círculo
mágicko. A segunda, a influência da Lei: 'Faz
o que tu queres, pois é tudo da Lei', sendo alterada
pedindo que não se prejudique ninguém. Sem dúvidas,
esta é uma questão controversa e que gera diversas
discussões sob a legitimidade ou não desses
'toques' herméticos. Como eu já coloquei, a
Bruxaria é uma bela e ampla árvore que tem diversos
galhos e estes, seus ramos. Trago então alguns de seus
galhos. No fim do texto, estão os contatos das pessoas
mencionadas.
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