Artigos > Valquírias:
as guerreiras de Odin
Autoria: Prof.
Johnni Langer
Data: 25/10/05
Artigo originalmente publicado na revista Brathair de
Estudos Celtas e Germânicos, vol. 4, n. 1, 2004.
No resgate e popularização da mitologia nórdica,
poucas narrativas fascinam tanto como a do mito das valkyrjor
(singular - valkyrja: valquíria). Celebradas pela música
wagneriana, pela literatura, cinema e até mesmo pelas
histórias em quadrinhos, as guerreiras de Óðinn
ocupam um lugar especial em nosso imaginário sobre
a cultura dos Vikings. Mas até que ponto essa nossa
contemporânea, construída pela arte oitocentista,
corresponde ao que os escandinavos imaginaram originalmente?
Qual o papel das valkyrjor para a religião e a sociedade
nórdica?
Nossa principal hipótese é a de que o mito
das valkyrjor esteve vinculado a certos fatores sociais relacionados
com a aristrocracia e a realeza - com finalidades de legitimação
dos poderes políticos e sociais destas mesmas classes.
A metodologia que adotamos no presente artigo são as
teorizações do historiador francês Régis
Boyer. Influenciado pelo mitólogo Georges Dumézil,
Boyer aplica a teoria da tripartição social
dos povos de origem Indo-Européia especificamente para
os estudos de religião escandinava. A concepção
cósmica de mundo, os rituais e as divindades seriam
concebidos em termos de ordem social. Para Régis Boyer
os mitos e os cultos nórdicos foram construídos
gradativamente, passando por acréscimos sucessivos
(BOYER, 1981: 10). Essa concepção diacrônica
também será adotada por nós, bem como
as atuais pesquisas que demonstram as influências culturais
estrangeiras no processo de formação religiosa
dos Vikings (DUBOIS, 1999; DAVIDSON, 1988, 1994) (1).
A sociedade nórdica estava originalmente dividida
em duas grandes categorias, a dos homens livres (karls) e
a dos escravos (thræll). A maior parte da população
livre era constituída de fazendeiros (bóndi,
pl. bndr), que também dedicavam-se ao comércio,
a navegação e a guerra. A aristocracia hereditária
(jarl) constituía o pequeno grupo que mantinha seus
privilégios nas comunidades, especialmente nas assembléias
gerais (things) e nos vínculos com a corte real (hirð).
Toda a política e o suporte militar era definido pelo
chefe local (lendrmaðr, membro da aristocracia), mas a
autoridade absoluta era centrada no rei (konungr), que também
exercia o papel de principal sacerdote público. A grande
maioria da população livre era adepta dos cultos
ao deus Þórr e aos vanes (entidades relacionadas
à fertilidade, especialmente Freyr e Freyja). A aristocracia
e a realeza perpetuavam especialmente os rituais ao deus principal
do panteão germano-escandinavo, Óðinn (Odin,
"fúria"), na qual o mito da valkyrjor estava
intimamente relacionado.
A palavra original do Nórdico antigo, Valkyrja, significa
"a que escolhe os mortos" (BOYER, 1997a: 164). Entidades
sobrenaturais relacionadas diretamente com marcialidade, a
sua associação com o destino dos guerreiros
mortos na batalha remete a uma tradição mítica
muito anterior aos Vikings, vinculada aos antigos germanos.
Na literatura anglo-saxã do século VIII surge
o termo wælcyrge ("a que escolhe os mortos")
(2). Hilda Davidson e Régis Boyer apontam três
e Brian Branston quatro fases nas imagens das valkyrjor, mas
todas possuindo aspectos relacionados à batalhas, ou
seja, de entidades femininas ligadas a conflitos. (3)
- A origem
do mito: as valkyrjor como entidades monstruosas
- A idealização
guerreira: servas de Óðinn, condutoras para o paraíso
- A "domesticação"
da guerreira: as valkyrjor como donzelas-cisnes
- A idealização
de proteção: as valkyrjor como agentes do destino
heróico
- As valkyrjor
como transgressoras: as narrativas de Brynhyldr
- Epílogo:
o significado do mito
- Bibliografia
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