Artigos > A magia do desespero
Autoria: Jan Duarte (saiba
mais)
Originalmente publicado no site Mito
& Magia
Qual era o papel da magia nos antigos cultos pagãos e qual é
o papel que ela vem assumindo nas tradições neopagãs,
em especial nas suas vertentes mais populares? Ao preconizar o uso da
magia como uma de suas características, os adeptos das atuais formas
de bruxaria estão se aproximando de cultos e tradições
ancestrais ou, ao contrário, estão simplesmente deturpando
uma visão cosmológica que não conseguem compreender?
As respostas para as perguntas acima não são simples. Em
primeiro lugar, é muito difícil precisar qual era o verdadeiro
papel da magia em sociedades antigas, das quais temos apenas evidências
arqueológicas e relatos de segunda mão. Quanto mais recuamos
no tempo, mais o nosso "conhecimento" deriva apenas de suposições,
até certo ponto lógicas. Ninguém pode afirmar com
total segurança, por exemplo, que as impressionantes pinturas rupestres
de Altamira ou Lascaux, tivessem realmente algum tipo de significado mágico.
Na verdade, muito do que se deduz dos costumes das antigas civilizações
parte de paralelos com culturas atuais que se supõe estejam
no mesmo nível de desenvolvimento.
De qualquer maneira, quer observemos as atuais sociedades indígenas,
quer nos fixemos nos relatos e testemunhos históricos, uma distinção
parece ficar clara: existem pelo menos dois tipos de ritos mágicos,
ou duas distintas abordagens da magia. Uma delas aproxima-se da religiosidade,
embora não se confunda com esta; a outra tem caráter
imediatista e, até certo ponto, egoísta.
Toda e qualquer religião possui um caráter mágico,
ou pelo menos algum tipo de magia implícita. Orar aos deuses,
pedir sua proteção e sua intervenção é
sempre uma forma de buscar no sobrenatural - entendido como aquilo que
está acima da natureza ou a pode controlar - o apoio para lidar
com o cotidiano. Ao realizar os seus ritos nos equinócios e solstícios,
tanto os construtores de Stonehenge quanto os índios brasileiros
buscavam e buscam a mesma coisa: que o ciclo das estações
se perpetue, que as colheitas prosperem, que a fertilidade da terra e
das mulheres se mantenha. No rito mágico da consagração,
o que o sacerdote celebra é a manutenção da comunidade
católica, através da comunhão.
Note-se que esse tipo de magia, associada à religião, é
mantenedora. Ela não busca modificar uma situação,
mas sim perpetuá-la. Enquanto ela é aparentemente eficaz,
a estabilidade está garantida. No momento em que ela parece falhar,
sobrevêm o desastre. Quando a automutilação ritual
dos reis maias e os sacrifícios sangrentos de seus sacerdotes não
podiam mais "impedir" a fome, as pestes e os inimigos externos,
eles perderam crédito, e a própria civilização
maia ruiu. A magia de caráter religioso ou semi-religioso visa,
portanto, a comunidade.
O segundo tipo de magia a que nos referimos, ao contrário, é
modificadora. Ela visa a modificação de uma situação
determinada, e concentra-se muito mais no indivíduo do que
na coletividade. Justamente por causa disso, ela tende a manifestar-se
com maior força em momentos de agravamento das condições
sociais, ou a partir de pessoas que se sentem alijadas do convívio
social, por diversos motivos. Os feiticeiros que atraem o amor de alguém
para si ou para outra pessoa, ou que causam a morte de seus desafetos,
são um exemplo. Da mesma forma, as "bruxas", em todos
os tempos e em todas as sociedades, foram acusadas da prática dos
mesmos malefícios, por intermédio da magia: destruir colheitas,
produzir tempestades, causar a esterilidade de homens e animais. Ou seja:
o que esse tipo de magia busca é praticamente o contrário
do que a magia de caráter religioso busca.
Sem precisarmos ir ao extremo da magia causadora de malefícios
ou infortúnios, no entanto, mesmo aqueles "feitiços"
que têm motivações aparentemente inócuas ou
benéficas se enquadram nessa mesma categoria. "Conseguir um
emprego", "arranjar um companheiro", "tornar-se mais
atraente", "saldar as dívidas", "afastar um
desafeto" e outros motivos comuns alegados para a prática
da magia, são profundamente individualistas e derivam da incapacidade
de lidar com uma crise conjuntural ou pessoal. Como dissemos, é
comum um recrudescimento desse tipo de prática mágica em
tempos de crise, e surgem daí as "ondas" de bruxaria
e ocultismo que se verificaram ao longo dos séculos, como na passagem
da Idade Média para a Idade Moderna, na época das revoluções
liberais no século XIX, no período após a Segunda
Guerra Mundial, e assim por diante.
Nossa sociedade é especialmente propícia para esse tipo
de manifestação. Marcado desde sempre por uma profunda desigualdade
social, onde o desemprego, a miséria e o descaso governamental
com a educação e a saúde foram a tônica, o
Brasil sempre foi um terreno fértil para a propagação
das práticas mágicas egocêntricas. Muitas vezes
elas eclodiram disfarçadas em movimentos religiosos ou messiânicos,
como o de Canudos, ou personificadas em indivíduos como o vidente
Zé Arigó. Hoje em dia, elas estão claramente visíveis
na expansão incontrolável da igrejas evangélicas
neo-pentecostais, cujos ritos - exorcismos, unções, etc.
- claramente mágicos, prometem sempre uma melhora de vida, uma
saída para o desespero, que é a principal coisa que seus
fiéis têm em comum. Os rituais catárticos e mágicos
dos neo-pentecostais, que prometem a mudança, falam mais alto às
populações desesperadas que a liturgia católica,
que prega a resignação.
Para nossos jovens e adolescentes de classe média, pressionados
pela competitividade e pela sociedade que lhes impõe padrões
de consumo e estéticos muitas vezes inatingíveis, o apelo
dessa magia, implícita no neopaganismo, é extremamente atraente.
Ao contrário das camadas mais pobres da população,
eles têm acesso à Internet e aos livros e revistas, e encontram
neles um farto material de divulgação. Dessa maneira,
ao invés de se voltarem para práticas mágicas disfarçadas
em ritos cristãos, preferem assumir uma postura que, de princípio,
já os torna "diferentes". Assim, adotam o neopaganismo
como uma religiosidade que assume de forma clara a prática efetiva
e generalizada da magia, ou mesmo que a apresenta acintosamente como a
solução para uma série de pequenos problemas: as
gordurinhas a mais, a timidez, a rejeição, o primeiro emprego,
o vestibular, e assim por diante.
É claro que essa adoção (poderíamos dizer
conversão) baseada no imediatismo não é duradoura.
Preocupado apenas com o resultado, o novo adepto logo se decepciona ao
ver que tais feitiços simplesmente não funcionam, e que
todo o arsenal de velas, incensos, fitas, cordões, pentagramas
e outros badulaques que ele comprou serviram apenas para encher o bolso
do dono da loja esotérica. Poucos são os que percebem
que a mudança deve partir dele mesmo, e que um feitiço é
apenas uma forma de muleta. Estes talvez continuem neopagãos.
Agora, cumpre aos divulgadores do neopaganismo a escolha. Continuar insistindo
na "religião da magia", que se faz com caldeirões
e frases de efeito, é conseguir uma clientela fácil e rentosa,
mas efêmera. É transformar aquilo que se propõe a
ser a religião da natureza, calcada no coletivo e na preservação,
numa religião do ego, baseada no individualismo e no desajuste
social.
Comente este
texto no Fórum
Leia outros textos de Jan Duarte
Festivais
dos mortos: tradição ou contradição?
Etimologia
da palavra "wicca"
Bruxos
e pagãos
BRUXARIA.NET :: A Lua brilha para todos
{relacionados}
<<
Voltar à página anterior
|